Walter Boechat é médico, analista junguiano, diplomado pelo Instituto C.G.Jung de Zurique. Membro-Fundador da Associação Junguiana do Brasil.
«O conteúdo dos sonhos, seu significado e sua importância para o sonhador, são temas que têm preocupado a humanidade desde seus inícios. Sabemos que os sonhos fascinaram o homem arcaico assim como ainda fascina os homens nas culturas tribais de uma forma peculiar: seus conteúdos revelariam de forma literal e direta eventos da vida diurna. Xamãs e adivinhos sempre buscaram nos sonhos fontes para suas profecias e premonições.
Um fator comum permeia o relacionamento do homem arcaico com o universo onírico, pertença ele a qualquer que seja o grupo social: os conteúdos oníricos não são vivenciados como símbolos, em sua riqueza polissêmica, mas como sinais de significado fixo. Esse significado fixo é dado por pressuposto cultural qualquer.
Esta forma literal de vivenciar a subjetividade dos sonhos não é privativa da sociedade tribal, nossos contemporâneos rurais, por exemplo,vivem sob a influência inconsciente de um sistema de crenças mágico, que atribui valores determinados a certos símbolos oníricos, reduzindo-os a sinais unívocos. A fascinação é semelhante, quer entre o xamã siberiano, que tem sonhos de profundo significado religioso, quer seja o paciente no templo do deus- médico Asclépio, na Grécia antiga que sonha a cura de sua doença no santuário do deus. Também o homem simples é tomado pelo poder das imagens em seu sistema de crenças, que rezam que certos animais ou objetos significam eventos específicos da vida desperta. Esta rede de significados visa estabelecer pontes entre o mundo onírico e o mundo diurno.
O grande valor da psicologia do inconsciente na recuperação do mundo onírico na sociedade contemporânea, é que tanto Freud quanto Jung preocuparam-se com o resgate de símbolos, não de sinais unívocos. A simplicidade ingênua da antiga abordagem dos conteúdos oníricos como sinais de valor literal foi transcendida.
Freud procurou realizar este salto fundamental declarando o sonho uma via regia para o inconsciente e usando seu método genial das associações livres. O método das associações libera a imagem de seu significado fixo, uma mesma imagem pode ter significados diferentes, para sonhadores diferentes. Mas Jung detecta uma falha no método das associações livres, uma vez que elas podem levar o sonhador para longe demais da imagem que constitui o sonho, e o sonhador acabará se deparando com um complexo inconsciente, é verdade, mas um conteúdo que pode ter pouco a ver com a imagem do sonho em si. Jung lembra que para se chegar ao mesmo complexo pode-se partir, por associações livres, de qualquer conteúdo consciente. Em vez disso, Jung propõe o método das associações circunscritas; as imagens são rigorosamente valorizadas, em sua textura, cor e dimensões. As emoções particulares do sonhador em relação a cada imagem são também enfatizadas.
Mas neste fascinante mosaico antitético de duas realidades paralelas, a realidade vigil e a realidade misteriosa dos sonhos, as imagens oníricas cumprem sempre uma função básica, quer seja entre o homem arcaico, quer seja entre aqueles da sociedade complexo, onde os sonhos são interpretados de uma forma sofisticada pela psicanálise ou pela psicologia analítica. A função básica do sonho é relativizar a estreiteza da realidade consciente. A riqueza da imagética onírica nos trás de forma definitiva uma realidade nova, que nos faz recuar de nossos automatismos conscientes e questionar. Don Juan, mestre (onírico ou vigil?) de Carlos Castañeda está certo: a realidade do tonal (vigília) encobre uma realidade muito mais ampla e significativa, o mundo do nagual (universo onírico).»
Publicado no Jornal SONHOS n º 10
http://www.nte-jgs.rct-sc.br/machado/sonhos/desenvol.htm
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