quinta-feira, 9 de abril de 2009

Complexo de Édipo

Os dois parágrafos seguintes foram retirados do livro "Agora já posso imaginar que faço" do autores Carlos Amaral Dias e João Sousa Monteiro e penso que poderão ajudar a compreender o fenómeno freudiano, que se refere à fase fálica do desenvolvimento psicossexual , e que é conhecido como o Complexo de Édipo. Deixo-vos aqui, também, aquilo que eu acho que pode ser utilizado como chave de descodificação das representações psíquicas utilizadas nesta citação e que também foi retirado do mesmo livro: "O único olhar objectivo é aquele que é capaz de assumir a sua própria subjectividade. Tudo o resto são projecções".

"Na infância, a palavra pénis representa uma coisa psíquica e daí a qualidade fálica, que é a inveja daquilo que ele desejaria ser (ser o pai ou ser a mãe) mas que ainda não é. A qualidade arcaica do elemento invejoso e fálico está presente na situação infantil, implicando frequentemente agressividade e violência. O que contraria a ideia de que a infância é a imagem do paraíso, e as crianças o modelo da inocência. E felizmente que não é assim. É muito mais divertido que não seja assim. Há um lugar óptimo para os anjos, que é o céu. Aqui não há tempo para andar a voar.

Tenho um pouco a impressão de que o mito da inocência das crianças foi uma ideia engraçada que os adultos puseram a circular quando já não sabiam mais o que haviam de fazer da sua própria culpabilidade, ao verificarem que tinham perdido a inocência, ou melhor, quando começaram a descobrir que, afinal, nunca tinham sido inocentes. E isso era-lhes insuportável. Então põem umas asas nas crianças, arranjam-lhes uns sorrisos de querubim bolachudo, fazem delas os inocentes que elas não sabiam que eram. É chato é para as crianças, que nunca foram assim, e certamente não gostam nada que as tratem com anjos, que de facto não são. Gostavam seguramente muito mais que as tratassem como gente inteligente, que deseja, que se apavora, que sonha, que quer saber, que inventa, que odeia, que chora e que ri, e que não esfola os adultos vivos porque eles não deixam. É pena que os adultos tenham tanto medo da “indecência” de não ser inocente, porque assim obrigam as crianças a fingirem uma coisa que elas nunca foram."

2 comentários:

  1. Como sabes este tema continua a ser o meu "calcanhar de aquiles" no que toca a Freud. Através da minha subjectividade, concordo com o início, concordo com o fim, mas ainda não encontro a pacificação com alguns pontos pelo meio.

    Vou, no entanto, atribuir essa culpa às editoras de todos os nossos diccionários pessoais, a todas essas diferentes edições e diferentes conceitos e significados. :P

    Bem... a minha subjectividade diz que nem tanto ao mar nem tanto à terra, ou seja, as crianças não têm essa inocência e experimentam todas essas emoções, enquanto seres humanos que são, mas não têm essa carga quer a nível de inveja, agressividade ou violência.
    But that's just me!

    Pano para mangas... mas à falta da disponibilidade necessária no momento, vou terminar com as famosas reticências... ;)

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  2. Ok, vou deixar aqui mais três parágrafos da mesma fonte para tentar abordar essa questão que referiste e que é relativa à agressidade dos indivíduos e de todos os sentimentos daí derivados, porque concordo contigo que não seja pacífico entendê-lo como nos referimos às crianças e bébés. Proponho, no entanto, que tenhamos alguma atenção para não cometer o erro de ver estes sentimentos à nossa escala, que será seguramente diferente da escala de qualquer outro indivíduo e ainda mais se pensarmos nos indivíduos mais pequenos, onde a percepção do mundo é igualmente diferente.

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    "É sabido que no senso comum, ódio e agressividade são coisas semelhantes, paralelas. Porém sê-lo-ão de facto? Isto é, será agressividade um sentimento ou um instinto? A agressividade, enquanto tal, provavelmente faz parte do reportório inato do ser humano. Já o ódio é qualquer coisa que se dirige a outra pessoa. Quando nascemos, trazemos um equipamento psicomotor complexo que organiza aquilo a que hoje se sabe são muitíssimo mais complexas, organizadas e estruturadas do que antes se pensava. Estas novas descobertas põem em saliência o quanto Mélanie Klein tinha razão quando postulava no recém-nascido um Eu à partida suficientemente desenvolvido que pode experimentar angústia e ter relações objectais, isto é, relações com pessoas na fantasia e na realidade. Foi muito criticada por outros autores mais “clássicos”, nomeadamente por Freud, mas as descobertas contemporâneas demonstram de uma maneira inequívoca que o bebé humano dispõe dum reportório inato do ponto de vista da percepção e de mecanismos ligados à senso-percepção (capacidade auditivas, olfactivas, visuais) que lhe permitem entrar em contacto com a realidade e reconhecer essa realidade como existindo fora dele. O bebé nasce também com uma agressividade básica que faz parte do equipamento humano necessário à própria sobrevivência.

    Assim cabe perguntar de que forma é que o recém-nascido é capaz de transformar essa agressividade numa outra coisa, neste caso, num afecto (porque o ódio é um afecto) e do que é que isso depende. Penso que a forma como nós podemos ver o ódio no bebé não é tanto sob a forma duma zanga aparente, mas duma intolerância à frustração. Esta demonstra, pela sua própria natureza, um ódio extremo à realidade, na medida em que essa realidade não é a nenhum nível satisfatório. Assim, o ódio está ligado à capacidade que o bebé tem, ou não, de poder ser entendido nas suas necessidades básicas pelo objecto que o suporta, e que pode fazer desenvolver, que é a própria mãe. E o ódio é maior ou menor, conforme seja maior ou menor a insatisfação e o bebé seja compreendido na expressão das suas necessidades.

    (…)

    Menninger dizia, num livro chamado Man against himself, que nós devemos amar o que merece o nosso amor e odiar o que merece o nosso ódio. Por exemplo, ninguém pode amar a bomba atómica. Odiar o que merece o nosso ódio, aí tem um ódio bem canalizado, o ódio ao ódio. O indivíduo que odeia o ódio, que odeia os que criam ódio, utiliza o ódio para fins construtivos, para aí radicar o ódio, tanto interno como externo, para poder construir duma forma mais criadora, tolerante. É que há coisas que são em si odiosas, porque fala de destruição, porque fala na nossa própria destruição interna, porque a intolerância, por exemplo, é odiosa. Porque há uma ameaça à nossa integridade mental. É por isso que eu penso que aquilo que nos ameaça merece também o nosso ódio. É uma manifestação de saúde mental detestarmos aquilo que nos ameaça."

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