domingo, 14 de junho de 2009

A Personalidade nas relações

A Personalidade nas Relações


Eu acho que é importante introduzir aqui o conceito de personalidade para melhor vos ajudar a compreender algo que, por vezes, parece que não é entendido. Personalidade vem de persona que é uma palavra grega que significa máscara. Esta máscara é a parte visível da nossa estrutura psicológica e não tem um sentido pejorativo, apesar de sabermos que o ser humano é capaz de mentir e ser desonesto. Máscara significa, portanto, a adaptação ao meio e situa-se precisamente entre a nossa realidade psíquica e a realidade externa. Ora esta máscara representa aquilo que nós impressionamos nos outros e altera-se com aquilo que os outros influenciam em nós.

Portanto, nós somos também os outros que influenciam em nós e mesmo que os outros não estejam presentes eles continuam no nosso interior e manifestam-se através das memórias, pensamentos e emoções. Então, nós, mesmo quando estamos sozinhos, também apresentamos esta personalidade, da mesma forma que aquilo que apresentamos a uns não pode ser o mesmo que apresentamos a outros, pois se assim não fosse significaria que a adaptação não acontece e isso poderá ser a própria sintomática da patologia mental.

Desta forma, digo-vos que aqueles que dizem que são sempre os mesmos em todas as ocasiões ou estão a mentir (a si próprios ou aos outros) ou então demonstram uma inflexibilidade na sua estrutura mental que necessariamente exige que sejam os outros a procederem nessa adaptação, o que não é justo para ninguém, pois nas relações é o contributo adaptativo de todas as partes que determina a qualidade das relações.

Escrevo-vos estas linhas para que compreendem que aquilo que conhecem em mim é o fruto da minha relação com cada um de vós, o que não significa que me conhecem nas minhas relações com outros. Não devem, portanto, descartar esta informação nas análises que fazem da minha pessoa, pois, se assim for, elas estarão sempre contaminadas por uma cegueira que não controlam. O mesmo se aplica na forma de vos ver aos meus olhos, pois aquilo que manifestam na relação que têm comigo não fala da vossa totalidade. Portanto, nós somos uns para os outros aquilo que resulta da nossa adaptação psicológica e comportamental com aquilo que o outro nos dá.

Claro que também existem determinadas características que permanecem em nós através das várias relações com o exterior e que está latente e que determinará o sucesso na adaptação que referi, mas estas condições fazem parte de uma individualidade que muitas vezes até é desconhecida para o próprio. Não quero seguir este caminho neste texto, pois o que determina estas características permanentes é demasiado nuclear e de difícil acesso, pelo que será muito mais simples analisar aquilo que é manifesto e esse é aquilo que referi como máscara.

À medida que as nossas máscaras vão sendo expostas nas relações, muitas vezes isto poderá fazer terminar o interesse para com essa relação, pelo facto de sabermos que ela não nos faria ter uma adaptação positiva para aquilo que queremos ser. Não tem necessariamente a ver com o gostar ou não do outro, que tantas vezes é referido como razão da não adaptação. Claro que devemos compreender que é muito mais atenuante para a nossa estrutura mental convencermo-nos de que o outro simplesmente não gostava de nós como nós somos e que até eventualmente andou a enganar-nos desde o início, apesar das inúmeras tentativas de provar o contrário. Também compreendo que faz parte deste processo a parte rejeitada procurar convencer-se de que outro não presta, pois, desta forma, é possível que seja projectado para fora dele a ideia insuportável que resultou dessa relação rejeitada, como que um deslocamento deste mal estar num ódio dirigido e colocado dentro de outro.

Eu compreendo isto tudo, mas não tem que ser assim. Conscientemente, eu estou em crer, as pessoas desejam o melhor para os outros, mas o medo da separação transporta os indivíduos a uma irracionalidade onde a solução psicológica reside numa necessidade manifesta de colocar fora dele aquilo que é desconfortável de aceitar como seu, que, por exemplo, poderá ser o facto de acreditar que nós não servimos para os outros, e é precisamente isto que fazem quando atacam e provocam quem os rejeitou no sentido de fazerem deles aquilo que não são nem nunca foram.

Finda uma relação, teremos oportunidade de manifestar uma outra personalidade com a próxima pessoa amada e muito facilmente chegamos à conclusão ilusória ou não de que o nosso problema adaptativo anterior era afinal justificado pela natureza da adaptação da pessoa anterior com quem estávamos. Isto só poderia indiciar alguma verdade se apenas fossemos nós mesmos os únicos nas relações que sofremos adaptações e, por assim dizer, nos anulássemos nas interacções que estabelecemos com os outros. Nestas adaptações, que no fundo é a razão da nossa existência, poderá ser que tenhamos alguma sorte ao fazermos por ela acontecer, ou talvez não. É uma lotaria...

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