Por João Loes e Suzane G. Frutuoso
«Na semana em que a morte de Sigmund Freud completa 70 anos, a divulgação de um livro secreto escrito pelo mais famoso discípulo do pai da psicanálise praticamente ofuscou a celebração. O suíço Carl Gustav Jung roubou a cena de seu desafeto - com quem cortou relações por divergência de ideias - mesmo morto há quase meio século. A obra, que está sendo chamada de "The Red Book" (O Livro Vermelho) devido à cor da capa, esteve guardada em um banco em Zurique, na Suíça, durante 23 anos. Tanto cuidado por parte dos descendentes de Jung não é apenas zelo diante de uma herança rara. O texto revela um lado obscuro da mente do psiquiatra. É a história de um especialista em inconsciente tentando lidar com os demônios de seu próprio inconsciente. Depois de uma negociação de quase duas décadas com familiares de Jung, o anúncio de que o livro será publicado em inglês, em 7 de outubro, e o original estará em exposição nos próximos meses no Rubin Museum of Art, em Nova York, deixou os junguianos de todo o mundo em êxtase. O trabalho está sendo considerado o mais influente da história da psicologia.
Escrito há quase 100 anos e com 205 páginas redigidas em alemão, o resultado beira o indigesto. Entre os delírios que rondavam o pensamento de Jung estão viagens que levavam à morte, a paixão por uma mulher que mais tarde ele descobre ser sua irmã, se ver esmagado por uma serpente gigante e comer o fígado de uma criança. Fantasias, é verdade, que podem fazer parte dos desejos mais proibidos de qualquer ser humano. Uma vez escancaradas, porém, chocam. No epílogo ele avisava: "Para o observador superficial parecerá uma loucura." Em outra passagem, expressa perturbação. "Acredito que estou completamente perdido. Estarei realmente louco? É tudo terrivelmente confuso."
Jung trabalhou no livro durante 16 anos. Até hoje, pouquíssimas pessoas tiveram acesso à obra. Sempre que alguém perguntava se era possível ler o trabalho recebia um sonoro não da família. Foi o analista americano Stephen Martin quem convenceu os parentes de Jung, num processo que começou em 1989. Ele é diretor da Philemon Foundation, instituição cuja missão é publicar a obra completa do psicanalista e manter viva sua memória. Martin gastou os últimos anos numa dedicação quase fanática na arrecadação de dinheiro para a tradução. Ele reconhece e entende o receio da família, mas acredita que se trata de um legado único para os seguidores de Jung. "Todos nós somos um pouco donos dessa obra", afirma.A comunidade junguiana aguarda essa publicação desde a morte de seu mestre. "Haverá festas em Zurique, Londres e Nova York no dia do lançamento", diz Denise Gimenez Ramos, coordenadora do Núcleo de Estudos Junguianos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e membro da Sociedade Brasileira de Psicologia. "Estou organizando uma aqui no Brasil." Ela diz que Jung é fundamental atualmente. Em 1959, no auge da Guerra Fria, quando o comunismo pasteurizava as individualidades, ele previu que viveríamos não em um mundo onde todos seriam apenas um número. Pelo contrário. "Disse que essa uniformização teria efeito inverso e que as pessoas passariam a lutar para ter e expor suas individualidades", conta Denise. Nada melhor do que o fenômeno dos sites de relacionamento como Orkut e Facebook para provar que Jung estava certo.
A teoria do inconsciente coletivo criada por ele afirma que o indivíduo nasce com um conhecimento de experiências já vividas pela espécie humana. Jung formulou esse conceito ao constatar que alguns de seus pacientes tinham alucinações com mitos que desconheciam. E ele também, como mostra o novo livro. Foi então que Jung desenvolveu a ideia dos arquétipos, elementos formadores das mitologias de um povo influenciadas por lendas das mais diversas culturas e épocas. Por exemplo, a crença de que existe um ser superior e onipotente é compartilhada pela maior parte das pessoas.
Assim como a figura do herói, hoje simbolizada pelos ídolos do esporte (e no passado pelos guerreiros que defendiam nações). Chegar a essa conclusão levou ao rompimento com Freud, que via a inconsciência como um calabouço dos desejos reprimidos de cada um de maneira individual, de acordo com experiências, e como uma patologia a ser tratada.
Para o psicoterapeuta Antônio Carlos Amador Pereira livros como esse, com relatos pessoais, geram repercussão e polêmica. "De maneira geral, porém, não mudam a prática psicanalítica", diz. Mesmo assim, é um testemunho impressionante de alguém que parecia ter o conhecimento total da mente dos pacientes - enquanto isso, sua própria imaginação era inconfessável. Ao confessá-la, ele incomoda justamente por nos lembrar que o absurdo faz parte do pensamento diário de todos nós.»
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