terça-feira, 5 de janeiro de 2010

So long, Professor Tavares

«O corpo, nossa habitação vivencial, criado à imagem e semelhança de Deus, não tem obrigatoriamente que sofrer para ser admitido, na sua essência imaterial, no Além prometido, mas a doença com a sua corte de males e dores físicas, morais ou psicológicas é algo a que está sujeito, não por determinação divina mas por questões naturais comuns a todos os seres vivos.
(...)

Há que atentar que a dor é sempre acompanhada por rituais simbólicos, variáveis de acordo com a cultura do paciente, a fim de poder ser reconhecida e corresponder às expectativas da colectividade com a qual o indivíduo tem laços sociais comuns, não podendo por isso transgredir esses rituais para não ser marginalizado ou mal visto se desrespeitar as regras que a tradição impõe.
(...)

O homem vive agrilhoado à dor, qual Prometeu ao rochedo, não por ter roubado o fogo dos deuses, mas por numa transgressão ao sagrado que lhe fora proposto para se conservar a viver no Éden, ter tentado aceder ao Conhecimento. Este acto, que o vai projectar para fora do Paraíso, através da sua queda no mundo da escuridão e da morte, podemos simbolicamente considerá-lo como o momento do surgimento da sua consciência de si próprio, da sua solidão cósmica, do início da saudade do paraíso perdido e jamais reencontrado, embora por todos tentado ainda nos dias de hoje.

No imaginário português a dor ocupa no entanto um lugar primordial, consubstanciado na saudade, dor psicológica transcendental de que o Fado se apossou.
(...)

É a este sentimento de tristeza que magoa, faz doer a alma, entristece e desanima quem o sofre, que envelhece e embota os sentidos mesmo aos mais novos, que Régio se refere. É o que chamamos de saudade, de fado, de destino, de fatalidade, sentimentos herdados de nossos avoengos árabes e berberes que por cá se mantiveram e com os nativos se miscigenaram por séculos, e fomos transmitindo culturalmente pelos mundos que criámos (...)

É tempo de sarar a dor que nos consome no stress diário, no desespero do amanhã sem sentido, na falta de esperança se não for consentido o anseio profundo duma aurora clara, vivificante, para que o corpo, no seu movimento para a transcendência, a intencionalidade operante de que fala Manuel Sérgio, possa encarar a vida com fé, sem se preocupar com o ocaso, pronunciante da nostálgica noite que anonima os homens no seu devir de salvação.

Para tal, e a provar que a dor é endémica e igualmente sofrida pelos seres humanos, trouxe-vos a música do jazz, outro sentir de outra cultura onde adeus, acompanhado sempre de saudades, se diz “so long”, palavra essa cujo sentimento nosso esse ritmo copiou. Ouçamos Bill Coleman cantar o “St. James Infirmary Bues”(...)»

Tavares, M.V. (2009). A Dor. (Trabalho apresentado no Colóquio A Motricidade Humana e os seus corpos, ISEIT, Almada)

Não encontrei o Bill Coleman, mas deixo-vos a música indicada pelo professor para ilustrar a Dor (com letra).

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