Autor: Affonso Romano de Sant'Anna
Site: http://www.affonsoromano.com.br/
Motivos os mais variados têm me levado a examinar mais d e perto o fenômeno da inveja. Um amigo, por exemplo, me conta que trouxe do interior um colega de infância, abriu-lhe a casa e a família, arranjou-lhe lugar na própria firma, e tudo ia bem, quando daí a anos notou que o outro estava fraudando a empresa e tentando arruiná-lo. Chamou-o para uma conversa e o amigo fez-lhe revelação dolorosa: sentia-se " sufocado" pela generosidade do outro, tentou ser como ele, " imitá-lo". Não o conseguindo, disse, " resolvi te destruir".
É patético. Lembra aquela estorinha bem antiga do homem que achou uma serpente na neve, ficou penalizado, abrigou-a no peito, e, quando a serpente se reanimo, picou seu benfeitor. Lembro-me de uma estória policial num bairro da minha infância: uma velhinha foi assassinada por dois homens que ela acolhia há dez anos, cedendo-lhes um quarto no quintal da casa. Na polícia os assassinos não conseguiram explicar seu crime.
Esses assassinos, aquela serpente e o amigo fraudulento não sabem, mas estão explicados num ensaio de Melanie Klein: "Inveja e gratidão". Nunca havia pensando na relação entre os dois. E ela existe.
Para Melanie Klein a criança tem, em relação ao seio materno, uma sensação de amor, realização e gratificação ou um sentimento de ódio, inveja e destruição. Existe um componente oral e anal sádico na inveja. Para outros como Karl Abraham, o invejoso é o indivíduo com problemas mal resolvidos na fase anal de sua formação. Seja como for, é melhor ir acompanhando a sabedoria popular e por uma cabeça de alho sobre a mesa de trabalho, andar com um ramo de arruda na orelha, porque a inveja e o mau olhado podem matar.
Lembram-se daquela pela e filme "Amadeus"? O texto de Peter Schaffer retrata clinicamente a inveja de Salieri, o esforçado professor de música, diante da genialidade criadora de Mozart A inveja era tanta que(na versão de Schaffer) ele tentou envenenar o compositor. Sua inveja o envenenava tanto que resolveu injetar veneno na vida de seu modelo e ídolo. Dizem que essa teria sido uma das causas da morte de Mozart. O fato é que na peça-filme, já velho, Salieri tenta o suicídio.
À primeira vista, ele teria tentado se matar por remorsos. Não é só isso. Como a inveja é uma construção neurótica, o desaparecimento do objeto da inveja não resolve o problema. O invejoso pode trocar de objeto de inveja ou introjetá-lo de tal modo, como Salierei, que a única maneira de matá-lo definitivamente é matar-se a si mesmo, pensando que assim ficará livre do outro, que na verdade é uma invenção dele.
Carlos Byinton tem uma original interpretação de "Amadeus", na qual estuda a inveja de uma forma mais ampla. Para ele a inveja não é necessariamente ruim. É um sentimento que deve ser vivenciado por todos. Faz parte dos mecanismos de estruturação do ego. Mas há um limite entre a inveja normal e a inveja patológica. Nesta, o invejoso é um animal predador, vive no lado negativo do ser, na " sombra". O invejoso, ao invés de agir positivamente tomando o outro como elemento estruturante do que os junguianos chamam de " self" parte para a destruição.
É complicadíssima a cabeça do invejoso patológico. Dizem os especialistas (confirmando as três estorinhas iniciais) que o invejoso não suporta a generosidade. Agora vejam que problema para o generoso. Como entender que o fazer o bem faz mal_ E mais: o invejo carrega "ansiedade persecutória"- Vive inventando que o estão perseguindo, tentando segurá-lo, boicotá-lo. E uma das suas especialidades é o cochicho, a meia-palavra à sombra. Raramente vem à luz. Não suporta o confronto, só de viés.
Vejam o exemplo das tortuosidades da cabeça do invejoso nas palavra de M. Klein: "Parece que uma sequência da inveja excessiva é uma originária sensação de culpa. Se a culpa prematura é experimentada por um ego ainda incapaz de suportá-la, a culpa é vivida como perseguição, e o objeto que desperta a culpa é tido como perseguidor".
Curiosamente, Melanie Klein dedica alguns parágrafos de seu estudo sobre a inveja ao que chama de "crítica destrutiva". Refere-se especificamente à literatura. Cita Chaucer, que fala do pecado da inveja literária e transcreve os versos de Spencer, nos quais o criticador invejoso surge como o que difama e cospe veneno de sua boca leprosa sobre o que o outro escreve.
Isso me lembra quando Jorge Amado publicou nos anos 50 "Gabriela, cravo e canela". Um Salieri desses escreveu num jornal de Sâo Paulo um artigo que começava assim: " Eu não sou crítico literário, mas em compensação, Jorge Amado também não é romancista". Não é uma maravilha! Aquele que não era nada queria nadificar também o outro.
Melanie Klein se refere à crítica literária que dialoga e ajuda a obra do outro a se desenvolver. Guimarães Rosa também fala disso, o critico que ajuda o autor a escrever sua obra.
O invejo fica possesso que o invejado não o inveje. O invejado tem o que ao invejo falta: a paz, a sanidade mental e a capacidade de produzir criativamente.
Claro que além disto, um dentinho de alho , um raminho de arruda e um talismã também ajudam.
A pergunta agora é...inveja ou admiração?
ResponderEliminarmuito bom artigo
Pedro, a inveja e a admiração andam, paradoxamente, de mãos dadas.
ResponderEliminarNa inveja negativa é procurado aniquilar aquilo que admiramos no outro, sendo que para isso o sujeito perde a capacidade de identificação com o outro.
Esta identificação ou procura dela, por parte do sujeito, é o que permite a transformação deste tipo de inveja numa inveja, digamos, positiva, onde é deixada de parte a busca da aniquilação em favor de um desenvolvimento pessoal para alcançar aquilo que admiramos no outro.
O povo diz "Se não o consegues destruir, então junta-te a ele" e é precisamente este processo de identificação ("então junta-te a ele) que permite a transformação do propósito inicial de morte (destruição daquilo que admiramos no outro) em algo que tem relação directa com a melhoria da qualidade da saúde mental do indíviduo.
A transformação que referi atrás pode ser entendida como o deslocamento da energia dispendida primariamente na destruição, por algo mais construtivo para o indivíduo, revelado na procura deste em atingir um estado satisfatório relativamente ao que mais admira no exterior a ele.
Continuando a reflectir sobre este assunto, quero também referir que é precisamente a dificuldade narcísica de certos indivíduos em não permitirem que o processo de identificação aconteça com aqueles que têm algo que admiram, que faz com que não entendam que ao aniquilar o que admiram no outro estão a aniquilar eles próprios, pois aquilo que foi aniquilado no outro é aquilo que eles admiram e, portanto, que faz parte dele próprio, seja por razões projectivas ou não.
ResponderEliminarClaro que tudo isto tem uma relação directa com o Complexo de Édipo e a sua resolução. Este complexo é iniciado, precisamente, pela existência de uma inveja negativa para com o progenitor do mesmo sexo, pelas razões de que este ameaça o espaço afectivo que a criança procura no progenitor do sexo oposto.
Para que o Complexo de Édipo seja resolvido é necessário que a criança compreenda ,inconscientemente claro, que se continuar a proceder de forma concorrencial para com o progenitor do mesmo sexo, ele acabará separado (castrado) do seu objecto de desejo.
É por este motivo que acaba por juntar-se ao progenitor do mesmo sexo para através de um processo de identificação com este, conseguir transformar a inveja inicial em inveja positiva e assim conquistar uma identidade sexual e um ego organizado, por forma a ser mais bem sucedido na procura da conquista do sexo oposto.
Para Freud, quando o Complexo de Édipo não era bem resolvido com esta identificação do objecto, que antes a criança tinha vontade de aniquilar, então isto significaria aquilo que podemos entender como uma predisposição psicológica para um estado neurótico do indivíduo, que após o período de latência (fase de maior desenvolvimento cognitivo e que ocorre entre a primeira infância e a adolescência), volta a ter oportunidade de se reajustar durante a adolescência e é precisamente nesta fase que é determinado se aquele indivíduo sofrerá ou não de um quadro neurótico enquanto adulto.
Para mais informações sobre estes temas, inveja, admiração e Complexo de Édipo, aconselho-vos a ler o livro "Eu já posso imaginar que faço" do Carlos Amaral Dias e João Sousa Monteiro.
Será a minha próxima leitura! ;)
ResponderEliminar